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Vozes Livres de Mação

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21
Jun10

CARDIGOS.JUNHO DE 1966 . DOS MAGRIÇOS DE ONTEM AOS AFRICANIÇOS DE HOJE

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Cardigos.Velha Matriz.Cópia executada a partir do original e autor desconhecido por Maria da Conceição Tavares, minha querida Professora Primária.

 

 

Estamos a dois passos da Velha Matriz de Cardigos. Tenho catorze anos e há um padre italiano que pintou, que o vi com os meus olhos, um destes dias, a Velha Matriz cujo incêndio ainda me crepita na memória mas, mesmo assim, ficou o seu Largo, a sua enorme escadaria e as tantas ruínas para os jogos de sol posto de que se faziam os nossos dias. Na minha curta memória passam, apressadas, as imagens com sabor a bem recheada canja dos almoços de primeira ou comunhão solene, já não sei, que, no mesmo Largo, à sombra de centenárias árvores, tinham lugar.

Esta Igreja vai ser, criminosamente, mandada destruír, nada sei, ainda, só tenho 14 anos e agora não estou aqui para falar do que ainda não sei que vai acontecer.

 

 

Suados, transpirados, acotovelando-nos uns aos outros, os adolescentes que restamos por Cardigos - em plena época de imigração para os Brasis, as Áfricas e alguns para as Américas - corremos, pressurosos, para a casa do Sr.Mário Tavares, que fica a dois passos da Matriz que o padre italiano para sempre deixou registada, mas de cuja criminosa destruição não sabemos, ainda, de nada, pois agora o que queremos mesmo, privilegiados de nós, é assentarmo-nos, meio engalfinhados para assistir ao jogo na "televisão a petróleo" do Sr. Mário Tavares.

Pouco nos importa que as imagens, trémulas, de quando em vez, e o cheiro a gasóleo queimado que vem do quintal, por vezes, também, nos entre pelas atentas narinas a pensar nos cinco tostões com que, depois, no Café do Tonito Silva, saborearíamos um ansiado Capilé e as redondinhas batatas fritas que nenhuma Lay ou Gourmet havia descoberto ainda. Mas de nada sabíamos. Só tinhamos 14 anos e o que queríamos, mesmo, era ver na única televisão da região, a petróleo, as fintas, os golos e o amor à camisola dos nossos Eusébio, José Augusto, Coluna, Torres, Hilário, Simões e tantos outros.

Mas aquela reviravolta da Coreia do Norte, os pulos de alegria, tudo compensava, as imagens trémulas de vez em quando, o cheiro a petróleo, de vez em quando e, até, mesmo, responder meio envergonhados aos dichotes com que o presidente da Junta de então, o Sr. Alberto Tavares, nos mimoseava "eh" tu,aí, olha lá, tu já pintas ou quê?!". Aquilo acabava por saber a distinção, como que era chegada a nossa hora de connosco a aldeia contar. E o jogo aquecia até mais não.

 

 

 

Haveríamos de chorar com Eusébio, mas ainda não.

 

 

As batatas fritas, estaladiças, aos domingos, mas... todos os dias, ainda não.

 

 

Obrigado, Eusébio, obrigado, todos os Magriços, pelo pequeno rombo na mitigada economia do lar que, então, nos fez celebrar o vosso arreganho, a vossa garra.

2

 

Hoje, de TV MOBILE em cada esquina,ICE TEA, geladinhas, caipirinhas, a qualquer hora, as saudades das imagens trémulas da TV PETROIL de então, tomaram-me pela mão!

Hoje, pareceu-me regressar a esse Verão!

Num pais tão trémulo, pudesse o futebol fazer-nos arrancar, de uma vez por todas, para a descoberta das energias que em nós trazemos adormecidas!

Foto:A Bola

 

AFINAL, NÃO É ANUNCIO, NÃO, MAS O O ANÚNCIO DE UM GOLÃO!

 

 

 

Nem que seja preciso começarmos tudo de novo, outra vez.

Com a mesma energia, com ...visão de jogo e cabeça fria!

Como é, AFRICANIÇOS de nós, no futebol, na economia, na sociologia, numa palavra, na ALEGRIA da arrancada para os tantos golos por marcar, para nos marcarem os novos dias?!

 

Comecemos pelo capilé, pôrra!!!

antónio colaço

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